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A pesquisa como princípio educativo
Gilvan Müller de Oliveira - 06/01/2009 15:15:07

A pesquisa como princípio educativo:  construção coletiva de um modelo de trabalho[1]

 

Gilvan Müller de Oliveira[2]

 

Introdução

            A pesquisa, entendida como princípio educativo, tem sido tema de várias obras nos últimos anos. Esse texto tem menos a pretensão de dialogar com eles do que de sistematizar princípios e formas de trabalho que emergiram da experiência de pesquisa do Programa de Aceleração da Secretaria Municipal de Educação de Florianópolis no segundo semestre de 1999 e especialmente em 2000. Trata-se da construção de um modelo de trabalho para o ensino fundamental em um processo coletivo: consultor, professores, equipe pedagógica, alunos se envolveram no executar e no pensar a pesquisa e seu funcionamento. Desse modo, podemos dizer que construímos uma prática social complexa, eliminando a tradicional dicotomia entre teoria e prática, entre os que pensam e os que executam. O resultado foi um modelo de trabalho ancorado na experiência dos professores participantes e, por isso mesmo, já testado em seu funcionamento. Apresentarei aqui um série de oito princípios derivados e ao mesmo tempo estruturadores desse modelo.

Percepção fundamental para o modelo é a de que pesquisa não é algo elevado, sublime, difícil, a ficar restrito às universidades (e mesmo lá, às pós-graduações) mas uma prática cotidiana: uma forma de se relacionar com o conhecimento. Cumpre, portanto, estender essa forma de relacionamento com o conhecimento para todos os setores da sociedade, quebrando assim o monopólio de certos grupos ao seu acesso privilegiado ? não ao conhecimento somente, mas sobretudo à forma como se acessa/produz o conhecimento.

Comecei trabalhando com pesquisa enquanto princípio educativo para grupos não-acadêmicos como consultor e docente dos programas de formação de professores da educação escolar indígena. O trabalho com professores indígenas nos levou rapidamente a admitir que o Estado, as secretarias, os consultores, pouco sabem sobre as culturas indígenas e que os professores indígenas são aqueles que sabem e que devem, juntamente com os anciãos, as lideranças, sistematizar seu conhecimento. Em uma situação como esta estava dada a condição básica para que a pesquisa se instituísse: faltavam aos órgãos oficiais e aos seus experts a consciência de dominar o conhecimento (um conhecimento) a ser passado aos professores para eles o transmitirem aos seus alunos.

Nos confrontamos assim com a idéia - muito concretamente - de que o professor e seus alunos são os produtores do conhecimento. Digo ?muito concretamente?, porque na teoria isso é facilmente aceito e foi já incorporado como chavão em ampla gama de propostas. Na minha experiência particular a educação escolar indígena foi o ponto de partida para pensar a pesquisa como processo ininterrupto de produção de conhecimento enquanto princípio educativo.

 

1ª Questão: interesse e conhecimento

A base para o funcionamento da pesquisa é o interesse das pessoas que participam do processo educativo e isso começa fazendo toda a diferença. O ensino em que as pessoas participam sem saber exatamente o que estão fazendo ali, a serventia do que aprendem, que reflete o interesse dos grupos que determinaram o que vai entrar num determinado currículo e qual é a ordem na qual um assunto deve ser apresentado tem, por definição, um baixo nível de mobilização. Aquele conhecimento, supostamente tão útil, ou tão universal (ou outra categoria qualquer utilizada na justificativa que faz dele ?conhecimento escolar?) não encontra eco na percepção dos estudantes e não passa a fazer parte da sua vida, não funcionando para alterar práticas, quaisquer que elas sejam.

Na experiência da pesquisa partimos do princípio de que cada um pode expressar quais  são seus interesses, e esses interesses não serão desprezados: "Teu interesse vale, já o dela não vale. Se tu tens interesse por doenças, o teu interesse é legítimo, mas o dela por pagode não é legítimo. Tais problemáticas podem ser da ou estar na escola, mas as problemáticas tais e tais não?.

A rígida definição do que é conhecimento escolar e do que não é tem amplas conseqüências sobre as problemáticas - e portanto os interesses - que excluímos da escola. Excluir da escola interesses significa excluir as próprias pessoas, de quem esses interesses são expressão. Só temos como mobilizar as forças das pessoas que compartilham esse evento social de importância da escola e da educação formal quando acreditamos que os seus interesses são legítimos. Se os interesses não são legítimos, se o interesse do aluno pela questão x ou y não está à altura da escola, então esse aluno não tem como participar  plenamente do processo de criação de conhecimento.

            A pesquisa se inicia, portanto, através de um levantamento ? dialógico ? sobre o quê os alunos gostariam de saber, de estudar, sobre que problemáticas gostariam de atacar, que mistérios gostariam de desvendar. Começamos recortando as problemáticas que vão conduzir os trabalhos por um determinado período de tempo, criando, nas discussões em pequenos grupos e em grande grupo, o objeto da pesquisa.

 

2a  Questão: A unidade de trabalho é a problemática

A pesquisa se alicerça sobre os interesses das pessoas e tem como unidade de trabalho a problemática e não, como muitas vezes se acredita o tema, ou o assunto. A grande armadilha da "pesquizinha" escolar (o que normalmente é chamado de pesquisa tradicionalmente na escola), que é outro nome para cópia, é achar que a pesquisa é feita sobre o tema. ?Vamos pesquisar a formiga, ou o Brasil, ou vamos pesquisar Florianópolis?. Não é possível pesquisar temas, mas somente problemáticas: preciso ter perguntas para serem respondidas. Fazer pesquisa é responder a perguntas cujas respostas não tenho de antemão. Só que fazer perguntas não é tão fácil quanto parece. Fazer perguntas não é banal. Muita gente não sabe fazer perguntas, desenvolver as perguntas, associar conjuntos de perguntas de modo a formar problemáticas. Muitas pessoas têm dificuldades em entender determinadas questões porque não conseguem formular as perguntas adequadas sobre elas.

Quando as professoras participantes do processo narraram que começam desenvolvendo as problemáticas, isso pode parecer, para quem não conhece o processo, uma questão relativamente óbvia, mas não é. Desenvolver as problemáticas significa saber o quê nós queremos saber e perceber isso não se dá de imediato, já que o objeto é construído. O que nós queremos saber precisa ser construído da mesma forma que as respostas que queremos ou podemos dar a essas perguntas. Por isso, para determinar quais as problemáticas que vão ser pesquisadas durante um certo período, precisamos de tempo -  algumas semanas, às vezes - de discussão e de construção do objeto de pesquisa que vai ser desenvolvido naquele período.

 O que conduz a pesquisa então não é o tema, não é o assunto. Enquanto acreditarmos que pesquisamos um tema, não faremos pesquisa. Por quê?  Porque nós precisamos primeiro desenvolver as perguntas que queremos responder. Se não temos perguntas não temos como procurar respostas.

 

3a  Questão: a construção do conhecimento precisa de centros focais

            As práticas escolares, em nossa escola tradicional, se caracterizam por serem fragmentárias, por não terem centro. O professor de matemática está fazendo uma coisa, o professor de português outra, as seqüências de matemática se sucedem sem que se veja um elo que ligue essas partes, elas não conduzem para um centro, não há um centro que aglutine o conhecimento transmitido ou apropriado na escola. A pesquisa fornece um centro ao redor do qual se organiza o conhecimento:é o ponto que aglutina o conhecimento, seu ponto focal. Sem um foco desse tipo, o que temos é uma imensa dispersão do campo, sem que seja possível nem ao aluno e nem ao professor compreender porque aqueles conteúdos aparecem naquela ordem, para que eles servem, como relacioná-los.

Falar em centro ou em foco implica na possibilidade de estabelecer relações. Não há processo de amadurecimento ou crescimento intelectual sem o estabelecimento de relações e é aí que a pesquisa se torna fundamental: uma vez estabelecido um percurso a ser realizado, suas necessidades internas dão sentido e lugar às novas informações ou conhecimentos adquiridos. Isso significa dizer que a pesquisa produz um centro provisório. Cada pesquisa em realização ou realizada estabelece um centro, centro diferente do de outra pesquisa, porém um centro. Naquele momento em que a pesquisa está acontecendo existe um ponto focal para o qual o conhecimento faz sentido. Quando passamos de uma pesquisa a outra, mudamos o centro, esse centro se desloca para outro lugar.

Ao contrário de uma forma curricular baseada em grade de disciplinas, que mapeia regiões de conhecimento sem centro, a pesquisa fornece sempre, provisoriamente, centros de organização do conhecimento.

 

4a Questão: o princípio educativo da pesquisa é universal e universalizável.

A pesquisa - como meio de adquirir conhecimento e atuar no mundo, processo próprio do ser humano -  não tem limitações técnicas: não tem limitações de idade dos participantes ou de grau de conhecimento prévio, mas é um processo universal e portanto universalizável enquanto prática educativa. A criança não precisa nem mesmo saber ler e escrever para fazer a pesquisa, porque a escrita e a leitura são instrumentos para a produção, para a criação e para adquirir conhecimentos, ao lado de outros instrumentos. A escrita e a leitura são apenas os instrumentos mais explorados numa sociedade como a nossa, que é uma sociedade letrada, mas não são os únicos, de onde não haver limitação de idade nem limitação de conhecimento prévio. O sistema de trabalho baseado na pesquisa não pressupõe pré-requisitos, não trabalha com a perspeciva de que há seqüências únicas para se chegar ao conhecimento.

Não precisamos começar por aqui para chegar lá, mas podemos começar por muitos lugares diferentes, conforme o grupo de interesses das pessoas com quem trabalhamos. Pesquisar é possível a todos, em todas as idades, em todos os níveis de conhecimento por que é próprio do ser humanos se fazer perguntas sobre o mundo e buscar respostas para essas perguntas.

 

5a Questão: antropologia

Para que a pesquisa funcione como princípio educativo precisamos de uma antropologia própria, quer dizer, de uma visão particular do homem. Qual visão? A visão de que as crianças não estão na escola para perturbar, não estão na escola para incomodar, não estão na aula para fazer bagunça: elas estão ali em busca de alguma coisa, em busca de conhecimento, do prazer e da potência que o conhecimento proporciona, em busca das chaves de compreensão do mundo que o conhecimento proporciona, em busca de poder agir, em busca de reconhecimento pessoal, emotivo, afetivo, elas estão ali em busca de sua própria humanização, mesmo que não saibam explicitá-lo. Se a escola atende a essas demandas ou não é outra questão.

Quando digo isso é no sentido de dizer que a experiência, a participação continuada nos processos de pesquisa altera muito profundamente as relações entre professores e alunos e a visão que cada um deles tem do outro.

Em primeiro lugar, tira a absoluta centralidade da figura do professor. O processo é descentralizado: não é o professor (o único) que transmite conhecimento mas a responsabilidade pela produção do conhecimento é de todos. Se aluno recebe responsabilidades, o que é absolutamente necessário para o funcionamento da pesquisa, ele também recebe a possibilidade de tomar decisões. O que se constrói no processo de pesquisa é um coletivo de trabalho, professor e alunos são um coletivo construindo uma pesquisa. Além disso, eles não estão sozinhos, mas vão procurar seus parceiros, vão procurar pessoas, instituições, apoios que podem enriquecer, que podem desdobrar, que podem aprofundar as questões que eles têm levantado.

Ao longo de um certo tempo de trabalho dessa forma, o professor terá uma série de contatos com a sociedade, com os pais, com especialistas, com técnicos que vêm para a escola em determinados momentos ou que recebem essas crianças em determinados lugares e que servem de ponte entre o conhecimento especializado, que eles dominam, e o conhecimento que tem um centro específico na pesquisa que está sendo feita naquela escola, com aquela turma.

            Essa nova antropologia implica no seguinte: na compreensão de que o aluno é um parceiro do professor, o aluno não está ali para sofrer medidas disciplinares e o professor não tem como principal foco a questão de conter os alunos em sala de aula para lhes passar um conhecimento. A visão de homem que decorre da construção dessa parceria entre professor e aluno se assenta na positividade do trabalho coletivo que respeita os interesses de todos os participantes.

 

6a Questão: qual o conteúdo da pesquisa?  ou ?e o conteúdo, como é que fica??

            Temos, na nossa escola tradicional, listas de conteúdos a serem ensinadas em determinados lapsos de tempo.

Na pesquisa não. A pesquisa não se fixa em conteúdos pré-determinados, porque se a base para o trabalho é o interesse dos alunos e esse interesse deve ser perseguido para que o processo realmente mobilize esses alunos, liberando assim as forças necessárias para o processo de aprendizado, então o objeto da pesquisa vai variar de grupo para grupo, de ano para ano, de situação para situação. As pesquisas não se repetem, ao contrário dos conteúdos da escola tradicional, porque são fruto de uma junção específica de interesses, uma conjuntura particular dos agentes envolvidos.

O trabalho com a pesquisa elimina a idéia de que todo ano, numa determinada série, teremos a mesma matéria. Ao contrário: na pesquisa não há possibilidade de se repetir, já que estão envolvidas pessoas diferentes, com interesses diferentes e que, por serem responsáveis pela construção do seu conhecimento, tomam decisões diferentes sobre como proceder em cada um dos momentos da construção desse conhecimento. A pesquisa realizada por um grupo não pode ser repetida por outro grupo sem, irremediavelmente, deixar de ser pesquisa. Cada processo, nesse sentido, é único.

Então poderia surgir a pergunta: mas e os conteúdos, como ficam?

Não são os conteúdos, não é a transmissão de determinados conteúdos a função da escola, mas a função da escola é a transmissão de formas de aprendizagem. Formas de lidar com o conhecimento, formas de se apropriar do conhecimento, formas de adquirir os instrumentos para adquirir o conhecimento. Importa saber onde buscar a informação, saber lidar com informação, saber sintetizar, saber argumentar, saber usar os instrumentos - por exemplo, a escrita - para acumular conhecimento. Saber expor, saber defender seus pontos de vista. Essa lista aglutina alguns pontos que poderíamos chamar de conteúdos procedurais: os procedimentos que precisam ser dominados para o estabelecimento de uma relação produtiva e positiva para com o conhecimento.

A chave do poder de nossa sociedade decorre do domínio desses procedimentos. Para uns o conhecimento é uma lista fixa, um conjunto de matérias que devem ser sabidos; para outros é um conjunto de técnicas, de procedimentos que são aplicadas para avançar sobre novas áreas. No primeiro ponto de vista, não existe a pesquisa, há conteúdos tradicionais, que levariam as pessoas ?para a frente?. No segundo ponto de vista, diríamos que o aprendizado é operacional, ele é aprendido na operação, na ação, e sua função é permitir a operação sobre o mundo. Esse segundo tipo de conhecimento não entra num ouvido e sai no outro. Os alunos que lidaram com isso, que viram o funcionamento, que atuaram sobre o mundo usando esse conhecimento não o esquecerão da mesma forma que uma pessoa que recebeu do professor uma série de nomes para guardar.

Mas mais importante do que isso, é que esse segundo tipo de conhecimento, aportado pela pesquisa, que leva à compreensão de como se gera e se usa o conhecimento é a chave para o domínio sobre os processos sociais e naturais. Fazer crer que conhecer é ter acesso a uma lista fixa de ?conteúdos? é na verdade excluir as pessoas expostas a esse tipo de ensino de qualquer possibilidade de dominarem os processos  que vivem, que são dinâmicos e que não se submetem sempre aos mesmos parâmetros.

 

 

7a Questão: pesquisa e disciplinaridade

            A pesquisa não é disciplinar, mas transcende as fronteiras do que seriam as chamadas ?disciplinas? - matemática, português, biologia, geografia. Essas áreas são formas cristalizadas da nossa tradição escolar (e da nossa tradição ocidental), mas não aprendemos ou atuamos com nosso conhecimento separando rigidamente os limites simples que as disciplinas procuram nos impor. Quando localizamos um conjunto de problemáticas e perseguimos honestamente a solução das questões envolvidas, o conhecimento gerado ou aprendido vai aparecendo em ordens diversas, em percursos e combinações próprias, sem as amarras das fronteiras das disciplinas tradicionais. Portanto, a pesquisa não se fixa nos limites de disciplina e, assim, não é uma pesquisa em matemática, em português, ou em geografia, já que não é assim que lidamos com o mundo.

As disciplinas são uma forma específica de organização do conhecimento que tem uma função didática em muitos casos, mas que não deve ser a chave organizadora dos percursos de construção do conhecimento na pesquisa, sob o risco de justamente desrespeitar os interesses dos participantes ? que não se expressam nessa forma de organização dos conhecimentos -  e de fragmentar os percursos em vários ?pedaços? que não se comunicam entre si. Eu por exemplo, sou contratado na faculdade de Letras, porque a minha área é a Lingüística. Nossa sociedade se organiza institucionalmente dessa forma, mas a forma como nós adquirimos conhecimento não se organiza necessariamente ou prioritariamente assim: por isso estou aqui para falar-lhes sobre o que aprendi sobre a pesquisa no ensino fundamental, por exemplo.

 

8a Questão: planejamento e avaliação

Planejamento é essencial para o funcionamento desse modelo de trabalho. Só que o planejamento na pesquisa deixa de se a preparação das aulas antes de começar o ano - o professor planeja que conteúdos ele vai dar e como serão distribuídos, que atividades terá para cada conteúdo, etc ? e passa a se concentrar, na verdade, na mecânica do funcionamento da pesquisa: vamos começar de tal maneira, vamos desenvolver as problemáticas coletivamente, a partir daí desenvolveremos o nosso objeto de trabalho. O planejamento se dá então, durante todo o processo, reagindo à constante avaliação sobre o caminho percorrido, propondo momentos de deliberação, alterando os rumos quando a estratégia traçada não estiver dando resultado. As dificuldades que surgirem no decorrer do processo serão analisadas, atacadas coletivamente e transformadas em oportunidades de novos aprendizados; as oportunidades serão valorizadas e seus desdobramentos cuidadosamente aproveitados para o encaminhamento de novos momentos produtivos. Uma vez terminado um ciclo de pesquisa, o professor pode, a posteriori, determinar o que foi alcançado pelo projeto de pesquisa , o que se levantou, que conhecimentos foram criados, como esses conhecimentos foram tratados. É nesse momento que se faz o registro dos resultados obtidos pela pesquisa.

 

Dentro desse quadro, ainda, uma questão importante é a questão da avaliação. Os trabalhos são feitos em grupos pequenos e esses grupos tem uma função muito importante no processo de pesquisa. O saber trabalhar em grupo, o saber dividir as tarefas, o saber negociar os objetos de pesquisa e sua realização é fundamental nesse processo. Se os professores e alunos fazem parte de um coletivo de pesquisa, então a avaliação é feita sobre esse coletivo, sobre os resultados adquiridos pelo coletivo e por cada uma de suas partes que são os pequenos grupos, chegando-se aos indivíduos que formam esses grupos. Avalia-se pelo percurso realizado pelas partes - pelo percurso e pelo resultado, pelo produto e pelo processo. Quando olhamos só o produto ele pode parecer muito bom ou pode parecer deficiente, quando olhamos o processo e o produto ao mesmo tempo, temos uma visão mais esclarecedora sobre o que aconteceu, sobre o avanço conseguido. Então, muda necessariamente o foco da avaliação, a avaliação é um conjunto de análises do projeto e do produto que a pesquisa gerou, mas também da participação do indivíduo em todas as instâncias que a pesquisa criou ou oportunizou, e inclui ainda as instâncias coletivas que foram importante para o trabalho.

O objetivo da avaliação, qual é? O objetivo é aprimorar o trabalho, é desenvolver as formas de trabalho, aumentar a responsabilidade das pessoas frente ao trabalho, aumentar a inclusão das pessoas no trabalho. Portanto, a função da avaliação é corrigir, aprimorar o trabalho que está sendo proposto, de modo que as pessoas se envolvam cada vez mais, que haja cada vez mais oportunidades de aprendizado.

 

Considerações finais

 

Gostaria de dizer, para concluir, que esse processo de que nós participamos na capacitação dos professores da Aceleração, nesse um ano e meio de trabalho, tornou claro o alcance da proposta de pesquisa como princípio educativo. Para além de ser uma forma de trabalho qualificadora dos alunos, foi e é também uma forma qualificadora dos professores. Envolver-se em pesquisa, em orientação ou organização de pesquisa, implica em seguir sua lógica interna, cuja principal característica é a de qualificação de todos que participam, que pensam e que agem segundo esses pensamentos. A qualificação dos professores obtida é basicamente na forma como se relacionam com o conhecimento - do tipo epistemológico, portanto ? com amplos desdobramentos sobre sua relação com os alunos, a escola, os livros e materiais didáticos, etc. É um poderoso instrumento para eliminação  dos preconceitos de toda ordem que alimentam as práticas escolares tradicionais.

            Algumas pessoas dizem assim: ?pesquisa nunca acaba, quando a gente pensa que está acabando, aí vem alguém que faz tantas perguntas que a gente vê que não sabe?. Exato. É assim que funciona o conhecimento humano. ?Ao final da pesquisa temos muitas perguntas, temos mais perguntas que respostas?. Portanto, temos aí mesmo, evidentemente, o caminho a ser seguido na continuidade do nosso esforço próprio de geração de conhecimento.

            A principal contribuição, no caso dos professores, é alternar radicalmente a relação que o professor tem com o conhecimento. O conhecimento é provisório, é um constructo, o conhecimento é construído por um coletivo de trabalho. É esse coletivo que dá sentido ao conhecimento. São das ações desse coletivo que é derivado o conhecimento, e o conhecimento não tem fim, não se esgota, mas engendra novos processos e determina novas questões a serem respondidas. É essa dinâmica interna que conduz para frente o processo, tanto para os alunos como para os professores.

Então, eu diria, fazer pesquisa junto com os alunos ? cumprindo sua tarefa de organizador ? é uma grande forma de formar professores. E formar professores para pesquisa é algo que não pode ocorrer fora da prática da pesquisa. Não faz sentido nenhum, portanto, uma afirmação que às vezes tenho escutado, que é a seguinte: "Nós ainda não sabemos como fazer pesquisa, então nós precisamos primeiro aprender o que é pesquisa para só depois começarmos com essa prática nas nossas escolas".

            Essa afirmação não faz sentido, pela própria definição do que é pesquisa. Porque para entender o que é pesquisa eu preciso fazer pesquisa e, portanto, só fazendo pesquisa é que eu vou descobrir o que é pesquisa e me qualificar para a organização da pesquisa.

           

Como proposta e modelo de trabalho, então, vemos que o procedimento de pesquisa pode reorganizar as práticas escolares em diferentes aspectos, eliminando problemas de várias ordens e que têm sido focalizados como se fossem separados uns dos outros. Não são. Disciplina deficiente, pouco interesse, falta de aprendizado, reprovação e tantos outros problemas são todas faces diferentes de um tipo de relação com o conhecimento e com as práticas burocratizadas que dele decorrem. Para além disso, finalmente, a generalização da pesquisa, implica numa forte democratização do conhecimento e da escola, porque atinge aquilo que ambas as instituições (o conhecimento também é uma instituição) têm de mais básico e fundamental: o como as pessoas se constróem e constróem a sociedade em que vivem na medida em que pensam e atuam sobre si mesmos e sobre o mundo ao seu redor.



Fonte: IPOL
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